
Se você já investe em Tesouro Direto, talvez já tenha notado algo que parece contraditório: mesmo em um investimento considerado “seguro”, o valor da sua posição pode oscilar de um dia para o outro — às vezes até apresentando “prejuízo” momentâneo. Entender os conceitos de marcação a mercado e marcação na curva é essencial para não se assustar com essas variações.
Neste artigo, vamos explicar o que são esses dois conceitos, por que eles existem e como usar esse conhecimento para tomar decisões mais informadas sobre quando comprar e vender títulos públicos.
Índice
O que é marcação a mercado
Marcação a mercado é a metodologia de precificação que reflete o valor atual de um título, caso ele fosse vendido antecipadamente naquele momento específico, considerando as condições de mercado vigentes (principalmente a variação das taxas de juros).
É esse valor que você vê diariamente no extrato da sua corretora ou no Tesouro Direto — o valor “de mercado” da sua posição, que pode subir ou descer diariamente, mesmo sem você ter feito nenhuma movimentação.
O que é marcação na curva
Marcação na curva é a metodologia que considera o valor do título como se ele fosse mantido até a data de vencimento, seguindo exatamente a rentabilidade contratada no momento da compra, sem considerar as oscilações do mercado no meio do caminho.
Ou seja: se você comprou um título prefixado com taxa de 10% ao ano e o mantém até o vencimento, você recebe exatamente essa rentabilidade combinada — independentemente de quanto o valor de mercado desse título oscilou durante o período em que você o manteve investido.
Por que existe essa diferença
A explicação está na relação entre preço dos títulos e taxa de juros. Quando as taxas de juros de mercado sobem, títulos com taxas prefixadas anteriormente (contratadas a uma taxa menor) se tornam relativamente menos atrativos, e seu valor de mercado (marcação a mercado) cai, para se ajustar à nova realidade de juros. O oposto acontece quando as taxas de juros caem: títulos prefixados anteriormente, com taxas mais altas, se tornam mais valiosos no mercado.
Essa dinâmica é especialmente relevante para títulos com taxa prefixada (como o Tesouro Prefixado) e títulos atrelados à inflação com taxa fixa (como o Tesouro IPCA+). Já o Tesouro Selic sofre uma oscilação bem menor nesse sentido, já que sua rentabilidade acompanha diretamente a variação da própria Taxa Selic, reduzindo o descompasso entre o que foi contratado e o cenário atual de juros.
Um exemplo prático
Imagine que você comprou um Tesouro Prefixado com taxa de 10% ao ano, e pouco tempo depois a Selic sobe significativamente, fazendo novos títulos prefixados serem emitidos com taxa de 13% ao ano.
Nesse cenário, seu título antigo (com taxa de apenas 10%) se torna relativamente menos atrativo comparado às novas opções disponíveis no mercado, e seu valor de mercado (marcação a mercado) tende a cair — mesmo que você ainda vá receber os 10% contratados, caso opte por manter o título até o vencimento (marcação na curva).
O contrário também é verdadeiro: se as taxas de juros caírem depois da sua compra, seu título prefixado antigo se torna mais valioso no mercado, podendo até ser vendido com lucro antes do vencimento.
Quando a marcação a mercado importa de verdade
A marcação a mercado só afeta você de fato se você vender o título antes do vencimento. Se a intenção é manter o título até a data final contratada, essas oscilações de curto e médio prazo são apenas “no papel” — o valor que você efetivamente recebe ao final é o combinado no momento da compra (considerando também o Imposto de Renda aplicável).
Esse é um dos motivos pelos quais entender seu horizonte de investimento é tão importante antes de escolher um título: comprar um título de longo vencimento pensando em resgatar em poucos meses pode expor você a oscilações de marcação a mercado desnecessárias, caso as taxas de juros se movam contra sua posição nesse meio-tempo.
Como isso se relaciona com o tipo de título escolhido
- Tesouro Selic: menor oscilação de marcação a mercado, já que acompanha diretamente a Selic — costuma ser a opção mais indicada para quem pode precisar resgatar o dinheiro a qualquer momento, como no caso da reserva de emergência.
- Tesouro Prefixado: maior sensibilidade à marcação a mercado, já que a rentabilidade é fixada no momento da compra e não acompanha as oscilações posteriores da Selic.
- Tesouro IPCA+: também sofre oscilações de marcação a mercado relacionadas à parte prefixada da sua rentabilidade (o “+” sobre a inflação), embora a parcela atrelada ao IPCA ajude a proteger o poder de compra no longo prazo.
Vendendo antes do vencimento: quando pode fazer sentido
Embora a recomendação geral seja alinhar o vencimento do título ao seu horizonte de investimento, existem situações em que vender antecipadamente, aproveitando uma marcação a mercado favorável, pode ser uma estratégia válida:
- Quando as taxas de juros caem significativamente após a compra de um título prefixado, gerando valorização do título no mercado;
- Quando há necessidade real de liquidez antes do vencimento planejado, mesmo que isso signifique aceitar o valor de mercado vigente naquele momento, seja ele favorável ou desfavorável.
O risco de vender no momento errado
O maior risco relacionado à marcação a mercado acontece quando o investidor precisa (ou decide, por desconhecimento) vender um título prefixado justamente em um momento de alta das taxas de juros, “realizando” uma perda que não existiria caso o título fosse mantido até o vencimento. Esse é um dos motivos pelos quais é importante escolher o tipo de título alinhado ao seu real horizonte de investimento, evitando surpresas desagradáveis.
Considerações finais
Entender a diferença entre marcação a mercado e marcação na curva ajuda a interpretar corretamente as oscilações que você vê no extrato do Tesouro Direto, evitando decisões precipitadas baseadas em variações de curto prazo que não necessariamente refletem o resultado final do seu investimento. A regra prática mais importante: alinhe o vencimento do título ao momento em que você efetivamente pretende usar aquele dinheiro, e as oscilações de marcação a mercado no meio do caminho deixam de ser uma preocupação relevante.
Este artigo tem caráter educativo e não constitui recomendação de investimento. Antes de investir, avalie seus objetivos financeiros, seu perfil de risco e, se necessário, busque orientação de um profissional certificado.

